[cafil-ufg] Retirar a escada, texto de Ignacio Ramonet, sobre livre comercio.

Fernando Nogueira Cabral dos Santos fencsantos em yahoo.com.br
Domingo Dezembro 4 11:16:22 BRST 2005


Esse artigo apresenta uma outra visão sobre, o
discurso da importância do livre comércio para o
desenvolvimento dos países mais pobres.  Lembrando que
as nações ricas na pratica não adotaram esse discurso
para se desenvolverem. 

Artigo retirado de:
http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.asp?id=1582&coluna=boletim

IGNACIO RAMONET
3/12/2005

Retirar a escada

EUA e Grã-Bretanha defendem que o livre comércio é o
melhor remédio para qualquer economia. Mas escondem
que foram os países mais protecionistas do mundo nos
séculos XVIII e XIX, com o argumento “infantil
industrial”. Hoje não querem que ninguém use o mesmo
argumento.

Conheci Ha-Joon Chang há alguns anos durante um
colóquio sobre a globalização liberal organizado pela
Unesco em Paris. Jovem e brilhante, este professor da
Faculdade de Economia da Universidade de Cambridge
(Reino Unido) nasceu na Coréia do Sul. Suas idéias, já
naquela ocasião, pareceram-me muito apaixonantes por
seu atrevimento, originalidade e heterodoxia. Acabaram
alimentando a minha própria reflexão sobre os
desvarios e excessos do neoliberalismo e da
globalização.

Agora que estamos às vésperas da reunião de cúpula da
Organização Mundial do Comércio (OMC), que começará em
Hong Kong no próximo dia 13 de dezembro, voltei a
conversas com Ha-Joon Chang e de novo fiquei impactado
por suas análises na contra-corrente do pensamento
econômico hegemônico.

As teses principais da OMC, defendidas por Washington
e Londres, sustentam que o livre comércio constitui um
remédio universal para qualquer economia, enquanto que
o protecionismo comercial seria o pior que poderia
ocorrer aos países e a seus habitantes.

O amigo Ha-Joon Chang pensa exatamente o contrário. Em
sua obra “Retirar la escalera” (Retirar a escada,
editado por Los Libros de la Catarata, Madrid, 2004),
mostra que, contra a pretensão dos ingleses e dos
norte-americanos de terem sido mais ou menos os
inventores do livre comércio, a Grã-Bretanha e os
Estados Unidos foram os países mais protecionistas do
mundo nos séculos XVIII e XIX. Ha-Joon Chang nos
lembra que o principal argumento protecionista – o
“argumento infantil industrial” – foi desenvolvido por
ninguém menos que o secretário do Tesouro dos EUA,
Alexander Hamilton, em seu informe ao Congresso de
1791.

Hamilton afirmava que, do mesmo modo que devemos
proteger e alimentar nossos filhos até que possam
entrar no mundo e competir com os adultos, os países
em desenvolvimento necessitam proteger e sustentar
suas indústrias até que sejam sólidas e possam
competir nos mercados mundiais.

Se um país em vias de desenvolvimento ingressa no
livre comércio antes de ter consolidado suas
capacidades tecnológicas, poderá ser um bom produtor
de café ou de roupa barata, mas a possibilidade de se
transformar em um produtor de automóveis de qualidade
ou de produtos eletro-eletrônicos rondarão o zero. A
Grã-Bretanha e os EUA usaram durante décadas uma ampla
gama de medidas protecionistas tais como os subsídios
diretos e indiretos, tarifas aduaneiras, regulação de
preços, propriedade estatal de bancos e de indústrias,
etc.

Por isso, quando os países ricos aconselham hoje aos
mais pobres, dizendo-lhes que o livre comércio e o
livre mercado são as rotas ideais para a prosperidade,
o que estaria demonstrado pela história, o que fazem,
na verdade, é “retirar a escada” com a qual ascenderam
rumo à prosperidade.

Ha Joon Chang toma emprestada essa metáfora do
economista alemão do século XIX, Friedrich List, que
afirmava que os países ricos, uma vez alcançada a
prosperidade através da escada do protecionismo, se
apressariam a dar-lhe um bom pontapé para que ninguém
mais pudesse alcançá-los. Ele acrescenta que os países
ricos reescreveram a história da mesma maneira que
Stalin, quando este suprimiu as fotografias de Trotsky
e de outros inimigos políticos, para que ninguém
soubesse como conseguiram efetivamente enriquecer.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
  ESP

Ignacio Ramonet é jornalista do Le Monde Diplomatique

Fernando N C Santos



	



	
		
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