[cafil-ufg] Homer Simpson o espectador pradão do Jornal Nacional
Fernando Nogueira Cabral dos Santos
fencsantos em yahoo.com.br
Domingo Dezembro 11 13:45:11 BRDT 2005
Por Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista,
professor da Escola de Comunicações e Artes da USP.
DE BONNER PARA HOMER
O editor-chefe considera o obtuso pai dos Simpsons
como o espectador
padrão do Jornal Nacional
Perplexidade no ar. Um grupo de professores da USP
está reunido em torno
da mesa onde o apresentador de tevê William Bonner
realiza a reunião de
pauta matutina do Jornal Nacional, na quarta-feira, 23
de novembro.
Alguns custam a acreditar no que vêem e ouvem. A
escolha dos principais
assuntos a serem transmitidos para milhões de pessoas
em todo o Brasil,
dali a algumas horas, é feita superficialmente, quase
sem discussão.
Os professores estão lá a convite da Rede Globo para
conhecer um pouco do
funcionamento do Jornal Nacional e algumas das
instalações da empresa no
Rio de Janeiro. São nove, de diferentes faculdades e
foram convidados por
terem dado palestras num curso de telejornalismo
promovido pela emissora
juntamente com a Escola de Comunicações e Artes da
USP. Chegaram ao Rio no
meio da manhã e do Santos Dumont uma van os levou ao
Jardim Botânico.
A conversa com o apresentador, que é também
editor-chefe do jornal, começa
um pouco antes da reunião de pauta, ainda de pé numa
ante-sala bem suprida
de doces, salgados, sucos e café. E sua primeira
informação viria a se
tornar referência para todas as conversas seguintes.
Depois de um
simpático “bom-dia”, Bonner informa sobre
uma pesquisa realizada pela
Globo que identificou o perfil do telespectador médio
do Jornal Nacional.
Constatou-se que ele tem muita dificuldade para
entender notícias
complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES,
por exemplo. Na
redação, foi apelidado de Homer Simpson. Trata-se do
simpático mas obtuso
personagem dos Simpsons, uma das séries estadunidenses
de maior sucesso na
televisão em todo o mundo. Pai da família Simpson,
Homer adora ficar no
sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É
preguiçoso e tem o
raciocínio lento.
A explicação inicial seria mais do que necessária. Daí
para a frente o
nome mais citado pelo editor-chefe do Jornal Nacional
é o do senhor
Simpson. “Essa o Homer não vai entender”,
diz Bonner, com convicção, antes
de rifar uma reportagem que, segundo ele, o
telespectador brasileiro médio
não compreenderia.
Mal-estar entre alguns professores. Dada a linha
condutora dos trabalhos –
atender ao Homer –, passa-se à reunião para
discutir a pauta do dia. Na
cabeceira, o editor-chefe; nas laterais, alguns
jornalistas responsáveis
por determinadas editorias e pela produção do jornal;
e na tela instalada
numa das paredes, imagens das redações de Nova York,
Brasília, São Paulo e
Belo Horizonte, com os seus representantes. Outras
cidades também suprem o
JN de notícias (Pequim, Porto Alegre, Roma), mas elas
não entram nessa
conversa eletrônica. E, num círculo maior, ainda ao
redor da mesa, os
professores convidados. É a teleconferência diária,
acompanhada de perto
pelos visitantes.
Todos recebem, por escrito, uma breve descrição dos
temas oferecidos pelas
“praças” (cidades onde se produzem
reportagens para o jornal) que são
analisados pelo editor-chefe. Esse resumo é
transmitido logo cedo para o
Rio e depois, na reunião, cada editor tenta explicar e
defender as
ofertas, mas eles não vão muito além do que está no
papel. Ninguém
contraria o chefe.
A primeira reportagem oferecida pela
“praça” de Nova York trata da venda
de óleo para calefação a baixo custo feita por uma
empresa de petróleo da
Venezuela para famílias pobres do estado de
Massachusetts. O resumo da
“oferta” jornalística informa que a
empresa venezuelana, “que tem 14 mil
postos de gasolina nos Estados Unidos, separou 45
milhões de litros de
combustível” para serem “vendidos em
parcerias com ONGs locais a preços
40% mais baixos do que os praticados no mercado
americano”. Uma notícia de
impacto social e político.
O editor-chefe do Jornal Nacional apenas pergunta se
os jornalistas têm a
posição do governo dos Estados Unidos antes de,
rapidamente, dizer que
considera a notícia imprópria para o jornal. E segue
em frente.
Na seqüência, entre uma imitação do presidente Lula e
da fala de um
argentino, passa a defender com grande empolgação uma
matéria oferecida
pela “praça” de Belo Horizonte. Em
Contagem, um juiz estava determinando a
soltura de presos por falta de condições carcerárias.
A argumentação do
editor-chefe é sobre o perigo de criminosos voltarem
às ruas. “Esse juiz é
um louco”, chega a dizer, indignado. Nenhuma
palavra sobre os motivos que
levaram o magistrado a tomar essa medida e, muito
menos, sobre a situação
dos presídios no Brasil. A defesa da matéria é em cima
do medo, sentimento
que se espalha pelo País e rende preciosos pontos de
audiência.
Sobre a greve dos peritos do INSS, que completava um
mês – matéria
oferecida por São Paulo –, o comentário gira em
torno dos prejuízos
causados ao órgão. “Quantos segurados já
poderiam ter voltado ao trabalho
e, sem perícia, continuam onerando o INSS”,
ouve-se. E sobre os grevistas?
Nada.
De Brasília é oferecida uma reportagem sobre “a
importância do superávit
fiscal para reduzir a dívida pública”. Um dos
visitantes, o professor
Gilson Schwartz, observou como a argumentação da
proponente obedecia aos
cânones econômicos ortodoxos e ressaltou a falta de
visões alternativas no
noticiário global.
Encerrada a reunião segue-se um tour pelas áreas
técnica e jornalística,
com a inevitável parada em torno da bancada onde o
editor-chefe senta-se
diariamente ao lado da esposa para falar ao Brasil. A
visita inclui a
passagem diante da tela do computador em que os
índices de audiência
chegam em tempo real. Líder eterna, a Globo pela manhã
é assediada pelo
Chaves mexicano, transmitido pelo SBT. Pelo menos é o
que dizem os números
do Ibope.
E no almoço, antes da sobremesa, chega o espelho do
Jornal Nacional
daquela noite (no jargão, espelho é a previsão das
reportagens a serem
transmitidas, relacionadas pela ordem de entrada e com
a respectiva
duração). Nenhuma grande novidade. A matéria dos
presos libertados pelo
juiz de Contagem abriria o jornal. E o óleo barato do
Chávez venezuelano
foi para o limbo.
Diante de saborosas tortas e antes de seguirem para o
Projac – o centro de
produções de novelas, seriados e programas de
auditório da Globo em
Jacarepaguá – os professores continuam ouvindo
inúmeras referências ao
Homer. A mesa é comprida e em torno dela notam-se
alguns olhares
constrangidos.
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