[cafil-ufg] Como matar um monstro assimilador

Janos Biro janosbiro em yahoo.com.br
Quinta Outubro 20 17:25:54 BRST 2005


Eu escrevi isso ontem por isso esperem erros...

Como matar um monstro assimilador
Por Janos Biro

	Aqueles que, como eu, estão de certa forma tentando
construir um movimento dissidente, ou seja, um
movimento que discorda do sistema atual, têm que ter
uma coisa em mente: a capacidade da ordem vigente de
assimilar e transformar movimentos, mesmo os mais
radicais, em idéias inofensivas ou mesmo oportunidades
para o comércio e para a perpetuação do capitalismo. O
capitalismo já devorou o movimento hippie, que hoje
pode ser comprado em lojas de marca ou em feiras
populares. Já devorou o ambientalismo, que é defendido
por supermercados e pregado até pelas igrejas. Está
devorando o anarquismo e o feminismo, que estão se
tornando artigos de venda em shoppings. Os próprios
leitores mais conscientes de Marx dizem que o marxismo
está infectado, vulgarizado pela maioria dos
marxistas. Não podemos simplesmente achar que basta
superlotar a boca do monstro até que ele não possa
engolir mais nada, porque sua enorme boca tem um poder
incrível de expansão. Cada movimento revolucionário
que ele engole aumenta sua capacidade de engolir
outros movimentos com cada vez menos mastigação. Como
ele faz isso?

	O capitalismo precisa expandir mercados, sempre. Um
novo movimento de insatisfeitos é sempre uma nova
oportunidade de vender novos produtos. O capitalismo
está perfeitamente satisfeito em vender coisas que
supostamente o criticam, o ofendem e o atacam, pois
contanto que as pessoas continuem comprando produtos,
ele vai continuar se expandindo. Ele prepara terreno
dando boas vindas a ONGs e outras organizações que
supostamente estão tentando corrigir problemas do
sistema. As pessoas estão cada vez mais insatisfeitas,
e por isso há cada vez mais voluntários lutando contra
os efeitos do sistema. Eles estão consumindo livros,
estão organizando encontros e estão prosseguindo sua
vida como consumidores, por mais conscientes e bem
intencionados que sejam, o que realmente estão fazendo
pela resolução do problema? Eles medem suas conquistas
pelas lutas que travam, e não pelas lutas que não mais
precisarão ser feitas. Ano após ano, aumentam os
esforços para conter os estragos do monstro, e ano
após anos os estragos aumentam, mais assuntos precisam
de atenção imediata e urgente, e mais pessoas lutando
mais firme e assim por diante. É uma bola de neve.
Somos chamados à ação com cada vez mais emergência, os
assuntos se tornam cada vez mais importantes, os
inimigos são cada vez mais perigosos, até que um dia
seremos surpreendidos com algo como: “O movimento
Salve a Terra No Último Minuto denuncia que, graças à
tudo que combatemos firmemente durante os últimos
séculos, a vida na Terra durará até quarta-feira, ao
invés de terça-feira. Conclamamos todos os cidadãos
conscientes de seus deveres para com a manutenção da
vida para um protesto em massa, onde vamos acusar
todos os responsáveis por isso e exigir que eles
consertem tudo magicamente no último minuto. Na
terça-feira vamos promover um debate sobre o filme ‘O
último dia’, seguido de uma festa com entrada franca e
bebida por conta. Participe”. Espero que vocês tenham
captado a moral dessa estória. Será que existe alguma
alternativa viável de ação que não possa ser
assimilada pelo capitalismo?

	O que eu tenho aqui é uma proposta, apenas uma
sugestão para criar uma alternativa ao “movimento”. Em
primeiro lugar, nunca use essa palavra para se referir
ao que você está tentando fazer. A palavra “movimento”
já está carregada de conceitos que atraem o olfato
monstro mais rapidamente. Ao invés disso, eu sugiro
usar uma palavra diferente para cada ocasião, como
confluência ou coalizão. Use o dicionário, invente uma
palavra nova ou não use palavra alguma. Isso é útil
para que as pessoas se perguntem: afinal, o que é isso
que você está fazendo? Aí você tem uma oportunidade de
explicar não só o que é, mas como é. Se tivermos algo
como “movimento ciber-eco-anarco-romantico-feminista”,
as pessoas reagirão automaticamente ao nome, em geral
para dizer que é uma bobagem. Então, nunca faça um
movimento, faça algo mais.

	Mas o que este “algo mais” precisa ter para ser
realmente imune à assimilação? Há um número de
sugestões que já foram feitas em outras ocasiões e que
talvez sejam úteis agora: 1) Não repita o que já foi
tentado no passado, tente algo novo. 2) Espalhe idéias
e não ideologias. 3) Conte vitórias por mudanças
qualitativas, e não quantitativas. 4) Não crie ou
melhore modelos estáticos, mas contribua para uma
mudança contínua e dinâmica nas causas dos problemas,
e não simplesmente nas conseqüências. 5) Não feche seu
objetivo a alvos específicos, mas amplie sua análise
para uma visão holística dos problemas. 6) Rejeite
todos os termos pré-moldados que possam etiquetar suas
ações. 7) Faça isso por você mesmo, não por um “ideal
moral superior”. 8) Não espere derrubar o velho para
então criar o novo, nem crie o novo antes, o que já
seria uma idealização, mas crie o novo enquanto
destrói o e velho e como parte inseparável dessa
destruição.

	Eu quero comentar algumas dessas sugestões. É
possível fazer algo novo? Só tem uma maneira de saber:
tentando. Qual a diferença entre espalhar idéias e
espalhar ideologias? Uma ideologia lembra um conjunto
completo de idéias, que são facilmente elevadas ao
nível de doutrina, e que por sua vez quase sempre se
mantêm através de dogmas. Não podemos nos trancar numa
visão estática de mundo, por mais que ela pareça
funcionar idealmente, a realidade não funciona como
nossas mentes. De nada adiante comemorar coisas como
“25 anos de luta!”, “100.000 associados!”, “10.000
pessoas beneficiadas!”. A medição quantitativa de
resultados é enganosa porque a quantidade de problemas
pode estar aumentando ainda mais, nem sempre no mesmo
lugar. “Bem, fazemos nossa parte reduzindo os índices
de (o que for) em 35%, agora é trabalho de outra
organização reduzir os índices de (outra coisa) que
tem aumentado assustadoramente nos últimos anos”. Esta
é a importância da visão holística, não ficar preso a
um resultado fragmentado e insuficiente, mas
considerar as conexões ocultas entre os problemas. Não
só é preciso rejeitar os termos, mas a lógica e a
moral civilizatória. Precisamos superar a linguagem
civilizatória, que é uma linguagem feita para a
dominação. Ao invés de uma revolução precisamos de uma
resolução. A questão número oito é a mais polêmica,
alguns são mais niilistas e outros são mais
idealistas, e eu acho que há espaço para ambos, desde
que no final se equilibrem. Alguns vão preferir
destruir o velho, outros vão preferir criar o novo, e
ambos não podem se isolar, mas dialogar e perceber que
estão trabalhando juntos afinal.

	O que há de tão desvantajoso na noção de “movimento”?
Para começar, movimentos tendem a separar as pessoas
em grupos distintos: há o movimento feminista, o
ecologista, o anarquista, e eles raramente conversam
entre si. Isto também exclui as pessoas comuns e
intimida novatos em potencial: “Ei, você nunca foi
numa reunião, você não usa nossa camiseta, você não
doou um centavo, você nem sequer leu este livro, como
pode dizer que faz parte do movimento?”. Fora de um
movimento podemos dizer que estamos apenas
contribuindo para a disseminação de certos
questionamentos e idéias. Isto atrai novas pessoas sem
afastar as outras: “Que idéias são essas que você
debate tanto com aquele cara?”. As pessoas podem fazer
parte da mudança sem precisar ter carteirinhas de
sócio. Não há compromisso só porque as pessoas do
grupo concordam entre si, mas primeiramente porque são
íntimas umas das outras. Só há compromisso com as suas
próprias idéias. Grupos devem ser formados pelos laços
de amizade e intimidade, e não por frágeis laços de
idéias comuns, que no fundo podem causar mais
conflitos que resoluções porque nuca são exatamente
iguais. É também importante sair do mero jogo numérico
de tentar converter o máximo de pessoas possível. É
mais vantajoso em longo prazo desenvolver idéias entre
amigos do que entre desconhecidos, cujo valor passa a
ser meramente a de um número a mais para o grupo.
Alcançar uma ou duas pessoas que seja, mas de maneira
profunda e permanente, é melhor que atingir milhares
que se esquecerão do que você disse na próxima semana.

	Outras armadilhas que podemos evitar são: reduzir
tudo a poucas opções: “direita ou esquerda”.
“capitalismo ou socialismo”, “isto ou aquilo”. Um
movimento tende a restringir seu alcance dizendo
“somos um movimento pró isto, isto e isto e contra
aquilo, aquilo e aquilo outro”. Devemos sempre fugir
do extremismo: “abaixo tudo!”, ou o inverso “tudo é
bom, tudo é válido”. É claro que precisamos de
definições, mas elas não precisam ser imutáveis, devem
ser flexíveis o bastante para ficar firmes sem se
quebrar. Quanto maior for a descentralização de
organização, mais podemos atacar por todos os lados e
atrapalhar bastante a capacidade do monstro de
abocanhar a “cabeça do grupo”, mas tudo isso ainda não
garante que não seremos assimilados. Até agora o que
foi discutido foi uma alternativa ao “como fazer”.
Deve haver uma alternativa também ao “que fazer”.

	Para falar disso, eu gostaria de expandir nossa
metáfora do monstro que assimila tudo. Ele não
simplesmente destrói movimentos, ele adquire seu
“poder” quando os assimila, e se torna capaz de
usá-los contra os próximos inimigos, como um vilão de
desenhos animados e história em quadrinhos. Contra
esse tipo de charada existem duas soluções criativas,
desenvolvidas por contadores de estórias. Uma delas
parte do princípio que é impossível não ser
assimilado, mas ainda não está tudo perdido! A idéia é
dar algo aparentemente poderoso para que o monstro
engula. Uma das propriedades dessa coisa, em contato
com outro elemento interno do monstro, cria uma nova
coisa, imprevisível para o monstro, e que
irremediavelmente o levará à morte ou anulará todos os
seus poderes. A outra solução parte do princípio que
com bastante paciência e observação do ponto fraco do
inimigo, é possível fazer um ataque
“super-hiper-efetivo”, que matará o monstro antes que
ele possa dizer “eu compro”, isto que dizer, antes que
ele possa assimilar a idéias. Ambas estão sujeitas à
critica, mas é o melhor que eu posso oferecer no
momento.

	Eu não tenho um exemplo real para dar em nenhuma das
opções. Se eu soubesse de um exemplo real que
funcionasse contra o Estado, eu já o teria usado. Não
estou sendo enigmático, estou sendo o mais claro que
posso. Tanto quanto eu sei, ainda não inventaram nada
que possa fazer o papel nem da primeira idéia nem da
segunda. Mas o fato de que ninguém pensou nisso ainda
não significa que ninguém jamais pensará. Não podemos
desistir de inventar novas idéias, principalmente
porque acredito que faz muito pouco tempo que estamos
nos ocupando seriamente com a questão da civilização,
e só recentemente adquirimos alguns conhecimentos
realmente nos ajudam a identificar qual o cerne da
questão. No mais, um detalhe importante é lembrar que
não basta destruir o monstro. Isso ele já está fazendo
sozinho, ele está entrando em colapso. O problema é
como deixar ele cair sem que ele destrua todos nós, ou
fazer com que ele caia antes que possa maximizar ainda
mais seu potencial de destruição e seu alcance.

Janos Biro
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